Flocos de sonhos.


Não há sentimentos antagónicos capazes de reconfortar os meus sentidos. Pelo menos não por agora. Há dias em que o Sol parece invadir a penumbra do quarto, vaguear ternamente por entre os lençóis e sucumbir na alma, de carisma inquietante mas nunca em demasia. Gosto de rever-me em memórias vagas, de refazer um percurso às vezes duvidoso mas quase sempre nostálgico. Tenho saudades do muito que deixei para trás. E a verdade é que o passado não sustenta os dias que se seguem, perspicazes e fugazes, no entanto, acalma. Hoje encontrei um eu desfeito. Desfeito por não saber a quem pertence e por temer a falta de incentivo. Hoje, espero que o sol me volte a percorrer, serenamente, e que me leve a dançar sob a chuva de Outono. Tenho vontade de abraçar o mundo e mais uma vez, olvidei-me de alcançá-lo. Quiçá esboce um sorriso nos meus lábios, amanhã, entre o aroma a café e a pão torrado. Hoje não. Prefiro voltar a relembrar quem de mim um dia fez parte e que revejo à distância numa fotografia envelhecida de um álbum de infância. Recordo aqueles dias tranquilos e sem preocupações adultas, passados a brincar alegremente sob os flocos de neve. As mãos esvoaçantes percorriam-nos docemente, tentando alcançá-los e prendê-los no gélido seio da palma. Corpos diminutos de seres irrequietos compunham marchas excêntricas, rodopios e saltos enérgicos, como se uma balada deslizante esconde-se toda a magia de um sonho ingénuo de criança. Tenho uma lágrima hesitante no canto do olho. Porque por muitos anos que passem, vou sentir saudades dos meninos que riam loucamente da vida. Parte de mim ficou naquela tarde, sob a neve, à espera de voar mais alto.

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