Good morning to myself.



Pela manhã aspiro a um bom dia luminoso, qualquer que seja a estação do ano. Mais um dia em que teço gestos com vontade de abraçar tudo o que é meu, tudo o que levo num sentir ilimitado. E os meus olhos clamam por mais, pelos dias certos de ternura, em que me entrego em demasia a sentimentos escarlates, nesse perfume cor de rubi que me acalma a pele. O sol entranha-se no corpo e delicia os meus últimos instantes no aconchego dos lençóis. Uma determinação de ficar assim, durante mais uns momentos de conforto é vencida pelo azul do céu que me convida a refrescar a alma. Levanto-me, com uma energia quase eléctrica, ouço os ritmos suaves da bossa-nova alternados com a sensualidade do tango. São melodias quentes que de mim soltam passos eufóricos de dança enquanto espero que a água da chaleira ferva. Não me sento para esse ritual quase diário que é o pequeno-almoço. Pelo contrário, continuo a balançar, entre o pão torrado e o aroma do café. De pés descalços, em pleno mês de Fevereiro, rodopio num mosaico gélido que não sinto, entrego-me à melodia. Todos os dias deveriam ser assim, de alegria contagiante, sem pressas, sem horários pré-definidos, sem autocarros que quase se perdem e apenas não se perdem porque corremos para lá chegar, sem banhos rápidos, sem meia chávena de chá que ficou na mesa da cozinha a arrefecer, sem aquela sensação quase sempre certa de que falta alguma coisa na mala, sem a frivolidade de cruzarmo-nos com as pessoas na rua sem tempo para esboçar um sorriso e dar um alegre bom dia. Aprendi a valorizar o sol que me acompanha enquanto caminho, que me deixa observar o mundo em meu redor, a gente que aqui co-habita, o trânsito que sigo à distância, os passos que seguem com pressa, os cheiros citadinos. Hoje, por isso, vou a pé para a universidade, porque desta forma os meus olhos se preenchem de sentido logo pela manhã. Haja sol todos os dias.

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